Não sou eu que digo

Acompanho um perfil no Instagram chamado “Diz que não é racista, mas”. Recomendo. Sou branco, entendo o privilégio perverso que tenho e preciso de referências constantes. Escrevi uma mensagem de agradecimento e fui ao canal do PH Côrtes. Ele repreendeu o Marcelo D2 pelo comentário racista sobre o Hélio Lopes, deputado mais votado do Rio de Janeiro.

Não tenho nenhum interesse em corrigir o PH nem censurar o Marcelo D2. Acredito que eu entenda o meu lugar e é talvez por isso que preciso observar um ponto no que sugere o rapaz. “Ele não quis ser racista”, PH observa. Geralmente, é exatamente esse o problema.

Deixar escapar uma observação racista é tão somente sintomático. Sugerir que um ato possa ser intencionalmente racista – vindo de alguém que “diz que não é” – acaba por evitar que o racista repense suas ideias. O racismo é muito profundo e muito naturalizado em nós para que qualquer pessoa possa considerar-se não racista. Se o sintoma aparece, as chances são muito boas de que você seja portador, no mínimo.

O racismo não é o ato da agressão. É pensamento que nos mantém separados no dia a dia, sem que você precise dar-se conta. É uma vida inteira reproduzindo e naturalizando o que parece ser simplesmente… natural. Racismo é o pensamento que te faz não sentir falta de protagonistas negros na TV. Que faz parecer aceitável que os “deuses do Egito” do cinema sejam brancos – escoceses, ingleses, americanos. Racismo é aquele egoísmo que faz parecer confortável que o negro seja invisível no seu cotidiano, seja por ausência física de fato, enquanto ele não acessa os mesmos privilégios que você, ou por descaso, de não percebê-lo nem mesmo como pessoa realizando função.

O ato da agressão, física ou verbal, é sinal de um privilégio perverso que é ignorado perpetuamente. No racismo, se a vítima não é culpabilizada, o agressor é desculpado. Negros não costumam receber a mesma cortesia. Também não mereciam, especialmente, os que de nós têm tanta certeza de não serem racistas – apesar de todos os sintomas.

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